Introdução
A categoria "minerais críticos" ganhou centralidade no vocabulário das relações internacionais a partir da segunda metade da década de 2010, quando a União Europeia, os Estados Unidos e, mais recentemente, o Brasil passaram a tratar a lista de matérias-primas estratégicas como problema de política industrial e segurança nacional. O deslocamento parece técnico, mas carrega uma reorganização profunda na forma como os Estados pensam a relação entre território, recursos e poder. A literatura recente sugere que a transição energética está reabrindo uma disputa antiga, agora redesenhada pelas tecnologias de baixo carbono, pela digitalização das infraestruturas e pela rivalidade entre Estados Unidos e China.
O Brasil ocupa uma posição peculiar nesse rearranjo. Detém reservas expressivas de nióbio, terras raras, lítio, níquel, grafita, bauxita e cobre, e continua majoritariamente exportador de minério bruto, dependente de bens industriais que utilizam exatamente esses materiais. A discussão pública sobre como capturar valor industrial na transição energética convive com pressões socioambientais, conflitos em territórios indígenas e quilombolas e com a entrada acelerada de capital chinês, europeu e norte-americano em projetos de extração e beneficiamento. O campo de pesquisa brasileiro sobre o tema ainda está em consolidação. Sua literatura combina hoje cinco agendas que historicamente caminharam separadas, articulando economia mineral, política industrial, geopolítica, crítica ao neoextrativismo e economia circular.
O curso parte dessa configuração para oferecer uma leitura analítica das disputas em torno dos minerais críticos. Não se trata de um curso técnico sobre mineração, nem de um panorama descritivo do setor. A proposta é tratar os minerais críticos como objeto político por excelência, isto é, como lugar onde se disputam definições de segurança, autonomia, desenvolvimento e justiça ambiental.
Objetivo
O curso pretende oferecer um repertório conceitual mínimo para que o estudante compreenda como "mineral crítico" foi construído como uma categoria política que, desde seu estabelecimento, já tem implicações geopolíticas. A partir desse ponto de partida, busca-se examinar a inserção brasileira nas cadeias globais de valor associadas à transição energética, com atenção às assimetrias entre o que o país exporta como matéria-prima e o que importa como bens industrializados. Pretende-se ainda discutir como a política industrial brasileira tem respondido a essa equação, e quais arranjos institucionais vêm sendo experimentados em torno do nióbio, do lítio e das terras raras.
O curso também situa o Brasil em um campo internacional em rápida transformação, marcado pela rivalidade entre os Estados Unidos e a China, pelo retorno da política industrial nas economias centrais e pelas iniciativas de países de renda média. O encerramento devolve ao estudante um conjunto de instrumentos analíticos, derivados da literatura sobre concentração de mercado e risco de suprimento, que permitem ler, de forma autônoma, as cadeias globais de minerais críticos e construir cenários para o posicionamento brasileiro.
Espera-se que, ao final, o estudante seja capaz de analisar criticamente notícias, documentos de políticas públicas e relatórios institucionais sobre o tema, identificar as posições em disputa em cada controvérsia e formular perguntas de pesquisa próprias para produção de conhecimento acionável. As discussões serão conduzidas por autoras e autores brasileiros que realizam pesquisa de fronteira na área.
Público-Alvo
O curso é dirigido a estudantes de graduação e pós-graduação em Relações Internacionais, Economia, Ciência Política, Geografia e áreas correlatas, e a profissionais que atuam em órgãos públicos, organismos internacionais, terceiro setor, jornalismo especializado e empresas com interface com o setor mineral e a transição energética.
Não se exige formação técnica prévia. As atividades serão conduzidas em português.
Metodologia
As aulas serão realizadas ao vivo pela plataforma Zoom. As gravações estarão disponíveis para consulta no Ambiente de Aprendizagem Online por até dois meses após o encerramento do curso.
Horário e Investimento